Thursday, 25 January 2007

Estratégia e Mercado Alvo

Numa noite eleitoral, contam-se votos para ambos os lados. Independentemente de outras motivações salutares, importa não perder isto de vista. Uma estratégia inteligente do Sim tem de pensar em termos claros se segmentação de mercado. Tem de tentar captar mais apoio ao Sim. Isto naturalmente, tem que ver com a posição final - Sim, Não, Abstenção - daqueles que ainda não estão totalmente decididos. Nessa segmentação, importa considerar:

i) os tipos existentes de indecisos;

ii) a percentagem de cada tipo de indeciso;

iii) o valor inerente a cada tipo de indeciso.

E é preciso ter isto tudo em conta porque o tempo é escasso e porque é preciso, como dizem os consultores de 2 em 2 minutos, "enfoque". Não se pode ser eficaz disparando para todo o lado. O "valor" inerente a cada indeciso, em termos da vitória do Sim, tem que ver sobretudo com a "probabilidade" de captar esse indeciso para o lado do Sim. Há que ponderar este asserção do valor de cada tipo de indeciso com a percentagem que julgamos existir no todo dos indecisos, para ver onde é que vale mais apostar.

Não é inteligente dedicar recursos a tentar convencer os que votam Não convictamente. Seria o mesmo que tentar aumentar as vendas de carne de porco junto do público vegetariano.

Também não é inteligente insistir em argumentos que atraem sobretudo aos que votam convictamente Sim. Seria tão errado, estrategicamente, como lançar uma campanha de marketing junto de certos clientes da Caixa Geral de Depósitos que todos sabem serão sempre clientes da Caixa Geral de Depósitos.

Importa, ainda, em tudo isto não perder os actuais "clientes", quer para o rival Não, quer, com muito maior probabilidade, para o rival Abstenção. É preciso moderação no que se diz e é preciso não cantar vitória.

É, portanto, imperativo ser "enfocado", apostando em atrair novos "clientes" e tendo em conta a atractividade de cada segmento, que inclui ponderar o tamanho desse segmento com a atractividade por cilente. Em meu entender, existem três tipos básicos de indecisos que devemos tentar atrair para o Sim:

1) Os que estão renitentes em votar Sim por acharem que está em causa uma "liberalização" até âs 10 semanas - e não uma legalização, que é o que está na mesa -, argumentando, à la Marcelo Rebelo de Sousa, que o feto e o direito à vida ficam desconsiderados. Isto não é verdade, como já expliquei aqui;

2) Os que estão renitentes em votar Sim por serem - como eu - contra a "subsidiação" do aborto. É preciso explicar que não é isto que está essencialmente em causa, que isso pode ão acontecer e que, mesmo que aconteça, pode ser revogado em ser por recurso ao referendo. Acresce que o direito negativo me parece, de todo o modo, merecedor de prevalecer perante este. Abordarei este ponto mais à frente;

3) Os que estariam inclinados a votar Sim, mas têm problemas de consciência devido ao direito à vida, argumentando, consequentemente, que podemos estar perante um retrocesso civilizacional. Este tipo de indecisos tem parecenças com os de Tipo 1, mas merecem ser diferenciados, porque o que está em caus não é tanto o facto de a mulher (como diz Marcelo) poder vir a fazer um aborto "sem qualquer justificação", mas pelo feto em si. Ou seja, o ponto principal é mesmo o direito à vida, mais do que a comparação entre este direito e o direito da mulher a abortar.

Aos indecisos de Tipo 3, a pergunta que se deve fazer (e que farei mais tarde) é a seguinte: já reparou que a Europa toda vive nesse "atraso civilizacional" de forma consciente e consentida? Será que não haverá algo de exagerado na forma como enquadramos o direito à vida, pelo menos até um período - 10 semanas - que é consensualmente tido como um período "razoável" para poder ultrapassar o dilema moral em causa? Mais, não é estranho que, sendo havendo tão grave rertocesso civilizacional, se faça tão pouco para alterar o que acontece por essa Europa fora? É que uma vida é uma vida, aqui como em Espanha.

Quanto a ii) e iii): estou demasiado longe de Portugal para "sentir o pulso" à coisa, mas julgo que será muito fácil de convencer os indecisos de Tipo 1 de que a legalização permite que existam períodos de reflexão, aconselhamento, etc. Isto deve ser frisado até à exaustão, sobretudo perante o que Marcelo tem vindo a dizer. Os indecisos de Tipo 2 serão muitos, também, em parte pela proliferação dos cartazes que referem os "impostos". E é bom lembrar que estamos em tempo de crise. Convencer os indecisos de Tipo 2 é marginalmente mais custoso que convencer os de Tipo 1. É preciso levar isso em conta na afectação de "tempo de argumentação". Os indecisos de Tipo 3 são os mais difíceis de convencer e o argumento da "Europa civilizada" pode fazer alienar alguns actuais apoiantes do Sim, embora seja importante. Cuidado redobrado, é o que se pede.

A reforçar a ideia de que é preciso "enfoque", temos ainda que, no momento de decidir, uma pessoa terá em conta, no máximo, dois ou três argumentos. Lembrar-se-á do que Marcelo tem dito na televisão, mais uma ou outra coisa, e decidirá. Isto, na hipótse de não votar puramente com base num "estado de alma". (Mas mesmo esse subconsciente, essa decisão automática, aparentemente não racional, pode ser "trabalhada" insistindo, calmamente, em dois ou três argumentos, que não mais).

Ontem avancei 7 argumentos de apoio ao Sim. É altura de concentrar esforços no que realmente pode fazer a diferença.

1 comment:

Sara said...

Tiago,
"O que está em causa não é, em primeira análise, saber se o aborto é “certo” ou “errado”, mas se o Estado deve punir uma mulher que aborte."

Ok, acho que até aí estamos todos de acordo. Não sei se é isto que achas falacioso na argumentação do Marcelo RS, mas de facto, a favor de não penalizar e mandar para a cadeia somos (pelo menos quase) todos.
O que acontece é que respondendo "sim" à pergunta do referendo estás a dizer sim a abortar sem qualquer motivo que não a vontade da mãe.
Se é a isso que dizes sim, então I rest my case. Se não, então porquê dizer "sim"?

Abraço
Sara